La Fiorentina é reduto da gastronômico e artístico do Rio há mais de 60 anos – por Rodolfo Abreu

Restaurante La Fiorentina, no Leme – Divulgação

Basta um volta no salão histórico do La Fiorentina, no Leme, para perceber que o local é muito mais que um simples restaurante. Com as paredes lotadas de fotografias dos clientes famosos (de todas as épocas) e as pilastras com assinaturas de celebridades, o La Fiorentina é um verdadeiro reduto cultural do Rio.

Localizado de frente para a praia do Leme, tem em sua entrada uma estátua de Ary Barroso sentado à mesa. O compositor de Aquarela do Brasil foi um de seus frequentadores mais antigos.

Estátua do compositor Ary Barroso na entrada do restaurante - Divulgação

A inauguração foi em 1957, mas foi entre os anos 60 e 80 que o lugar ficou mais conhecido, por ficar aberto até o último cliente ir embora. Assim, os intelectuais e a classe artística começaram a frequentar, pois saíam dos teatros e das casas de show e iam direto para o La Fiorentina relaxar e confraternizar. E isso começou a atrair aqueles atores e atrizes que precisavam entrar em alguma peça, filme ou programa de TV; para ver, se mostrar e conversar com outros atores, produtores e diretores.

A relação com as celebridades está também no cardápio. Para começar, a capa do menu vem divulgando todas as peças e produções artísticas que o La Fiorentina está apoiando. Além disso, todos os pratos do restaurante tem nome de personalidades. É inevitável ser influenciado ao escolher algum prato lendo os nomes dos homenageados: Bolinho de Bacalhau Zuenir Ventura, Salmão Defumado Marco Nanini, Gnocchi Pomodoro Diogo Vilella, Risoto de Camarão Vladimir Brichta, Picanha Antônio Fagundes, Filé Alla Pizzaiola Fernanda Montenegro, Pizza Capricciosa Cissa Guimarães, Petit Gateau Jô Soares, entre muitos outros. As brincadeiras durante as escolhas também são bastante comuns.

Restaurante La Fiorentina - Divulgação

Com tanto tempo em funcionamento, foram muitos encontros, romances e eventos que deram o que falar. Algumas dessas histórias foram reunidas no livro “As Noites da Fiorentina”, de Fritz Utzer (Editora Panorama, 2002). As histórias envolvem não somente artistas e personalidades brasileiros, mas também nomes internacionais de peso, como Brigitte Bardot, Rita Hayworth, Kim Novak e Romy Schnaider.

Livro 'As Noites da Fiorentina' - Divulgação

Crises e reabertura

Nem tudo é festa… O restaurante fechou suas portas por duas vezes: a primeira foi devido a um incêndio nos anos 90, que paralisou as atividades por quase uma década, sendo reaberto no ano 2000, quando o fundador Sylvio Hoffman passou o negócio para seu enteado Omar ‘Catito’ Peres. E depois, mais recentemente em 2021, devido à crise econômica e sanitária provocada pela COVID-19, quando ‘Catito’ decidiu encerrar as atividades.

Porém a reabertura da casa aconteceu apenas quatro meses após o fechamento. Um abaixo-assinado de artistas, intelectuais e demais frequentadores da casa, gerou um movimento de preservação do local, incluindo a busca de novos sócios e o tombamento do restaurante pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), sendo listado na relação de bens imateriais da cidade e no Cadastro dos Negócios Tradicionais e Notáveis. Isso significa que modificações no negócio precisam passar pelo por aprovação do patrimônio, mas também permite que o município busque incentivos para conservação e manutenção da casa.

Nessa retomada, o La Fiorentina ganhou dois sócios apaixonados pela casa: o empresário Delorme Lima e o produtor cultural Caio Bucker.

Revitalizado e mantendo a tradição, o La Fiorentina segue firme em 2022 com a boa gastronomia de sempre e promovendo encontros, lançamentos de livros e recebendo os artistas, intelectuais e boêmios da cidade maravilhosa.

Caio Bucker – produtor cultural e sócio

Entrevista por Rodolfo Abreu

Como começou sua relação com o La Fiorentina?

Caio: Eu frequento o La Fiorentina há mais de 15 anos. Foi o primeiro restaurante com essa pegada de parceria e com frequentadores da classe artística, imprensa, jornalistas que eu fui. Era bem jovem, estava começando a trabalhar com teatro e desde então eu sempre frequentei a Fiorentina e adorei estar lá, tanto pelo cardápio quanto pelas pessoas, pelo atendimento, pela localização, pela energia do lugar, por essa vibe criativa e artística que tem. Era mesmo uma tradição na minha vida sair de espetáculos ou de shows, encontros e ir para lá, porque ali não é só um restaurante para mim, é um ponto de encontro, um lugar de troca, de conversa, de contato, de conhecimento. É também um lugar de alegrias, de memórias, e de histórias. É um museu, como diz um amigo, o ator Ivan Mendes, com tantas assinaturas históricas e tantas fotografias icônicas. Além dos frequentadores que estão lá e que sempre têm uma história para contar.

E qual é a história que você tem para contar?

Caio: Antigamente as pessoas iam pra para ficar de olho, ver quem que estava lá e tentar fechar trabalhos. Eu já conheci pessoas que trabalham hoje comigo La Fiorentina, como por exemplo, a Elisa Lucinda. Eu fui apresentado a ela na Fiorentina pela cantora Daúde e desde então a gente vem trabalhando juntos. Sempre levei minhas produções para frente, então eu sempre tive muito carinho, muito respeito pelo lugar.

E como surgiu a ideia e a oportunidade de se tornar sócio da casa?

Caio: No ano passado, por conta da pandemia o La Fiorentina estava fechado e eu fiz o abaixo-assinado e todo esse movimento para transformar a Fiorentina em patrimônio imaterial da cidade. A classe artística comprou essa ideia na hora, assim como os moradores do bairro de Copacabana, do Leme e outros frequentadores. O prefeito Eduardo Paes incluiu a Fiorentina no IRPH como patrimônio imaterial do Rio de Janeiro. É mais do que merecido, porque realmente é um patrimônio da cidade, um lugar de muitas histórias com muita coisa para contar. E desde então eu entrei na sociedade junto com outra outra pessoa.

Caio Bucker - Foto ZZn Peres - Divulgação

Qual o seu papel junto ao La Fiorentina?

Caio: Uma das coisas que eu faço ali é realmente buscar os parceiros e manter viva essa coisa do teatro, da cultura, da arte. E está acontecendo, estou muito feliz e empolgado. O meu maior desafio é atualizar, renovar a Fiorentina sem perder a tradição. E é o que temos conseguido. Ao mesmo tempo que a gente vai atualizando com novas pessoas, pois estão indo lá novos públicos, nós mantemos a tradição, tanto das pessoas que já frequentam a casa há 20, 30 anos, quanto da estética da Fiorentina, com as assinaturas, as fotos. Mantivemos o cardápio tradicional, que é como se fosse um jornal, onde na capa estão as peças em cartaz que no momento estamos apoiando. Mas eu venho atualizando e, por exemplo, agora é a primeira vez que a Fiorentina tem rede social: no Instagram e no Facebook. Temos todo um trabalho digital sendo feito com criação e troca de conteúdos para a Fiorentina não ser apenas um restaurante, mas também ser um canal de cultura. Falamos das peças, colocamos depoimentos de pessoas que frequentam, falamos dos pratos, das curiosidades e falamos de história. É um trabalho muito legal.

E como tem sido o retorno desse trabalho que vocês tem feito após a reinauguração?

Caio: Por enquanto está indo muito bem, está dando tudo certo, ainda mais com esse respiro que a pandemia vem dando. Eu acho que com a vacinação, que é muito importante, o público volta a frequentar as peças, os shows e os espetáculos voltam a acontecer. Para a gente poder também estar junto, incentivando a cultura, valorizando os artistas que estão em cartaz no Rio de Janeiro e levando todos para comemorar, confraternizar e para manter os encontros.

La Fiorentina
Av. Atlântica, 458 A – Leme
Rio de Janeiro
(21) 2543-8395

Instagram: www.instagram.com/restaurantelafiorentina/
Facebook: Restaurante La Fiorentina


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