André Conrado: São Cristóvão – O bairro Imperial – Parte 1

Foto histórica do Bairro de São Cristóvão -Praia Formosa – Séc XVIII – Arquivo Nacional

A origem

No final do século XVI uma grande sesmaria pertencente aos jesuítas, que se estendia do Rio Comprido até Inhaúma, foi desmembrada em três engenhos: Fazenda do Engenho Velho, Fazenda do Engenho Novo e Fazenda de São Cristóvão. Uma pequena Igreja dedicada ao santo, que ficava à beira-mar e frequentada por pescadores foi batizada com o nome da última. Aterros sucessivos fizeram a orla desaparecer, mas o nome sobreviveu.

Em 1752, foi inaugurada uma construção que ainda está de pé e que, apesar da beleza e importância histórica, é pouco conhecida pelos cariocas: o Hospital Frei Antônio, administrado pela Irmandade da Candelária.

Imagem histórica do Hospital São Lazaro - 1780 - Biblioteca Nacional Digital

Originalmente, o prédio era a sede da Fazenda de São Cristóvão e a produção agropecuária local ajudava a abastecer a cidade. Porém, com a decisão do Marquês de Pombal de expulsar os jesuítas do Brasil colônia, de 1759 a 1760 serviu como cárcere para cerca de 200 padres da Companhia de Jesus, antes que seguissem para o exílio. As instalações, então, se transformaram no Hospital São Lázaro, destinado a acolher os portadores de hanseníase que já moravam na enseada de São Cristóvão, chamada de Praia Formosa.

Após um período de ostracismo, o histórico bairro resgatou sua importância a partir da vinda da família real portuguesa, em 1808, quando a região se dividiu em chácaras adquiridas por comerciantes abastados.

Foto do Hospital Frei Antônio e Praia Formosa - Séc XVIII - Biblioteca Nacional Digital

Também se seguiram algumas benfeitorias: a área ganhou novo acesso pelo Caminho do Aterrado ou das Lanternas e, em 1858, foi inaugurada a Estrada de Ferro Dom Pedro II, que cortava toda a Província do Rio de Janeiro, cruzando-a do centro da cidade até o município de Queimados. No Largo da Cancela, que recebeu o nome por causa do controle que os jesuítas exerciam sobre a passagem dos tropeiros, começava a Estrada Real de Santa Cruz, que dava acesso a São Paulo e Minas Gerais.

Imagem do Caminho das Lanternas (Lampiões a óleo de baleia) 1858 - São Cristóvão - Arquivo Nacional

Palácio de São Cristóvão

O Paço da Imperial Quinta de São Cristóvão, onde abrigou até o trágico incêndio ocorrido no dia 8 de setembro de 2018, o Museu Nacional de Arqueologia e Antropologia na Quinta da Boa Vista, não se chamou sempre assim.

Já foi o Paço de São Cristóvão (1803-1809), o Palácio Real (1810-1821), o Palácio Imperial (1822-1889) e, a partir da instauração da República, até a atualidade, é também conhecido como Palácio de São Cristóvão. Já o museu, criado por D. João VI em 1818, foi transferido do Campo de Santana para o palácio apenas em 1892, por insistência do diretor Ladislau de Souza Mello e Netto, numa tentativa de impedir que parte do patrimônio histórico desaparecesse por obra dos republicanos.

O conjunto arquitetônico – de importância inigualável para a memória nacional – só passou a ser definitivamente protegido a partir do tombamento realizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1938.

Foto do Palácio Imperial da Quinta da Boa Vista - Séc XIX - IMS

Palácio de São Cristóvão foi residência oficial da família real durante seus primeiros anos no Brasil. Com o retorno de D. João VI para Portugal, em 1821, continuou sendo a moradia do imperador D. Pedro I. Naquele mesmo endereço nasceu D. Pedro II, que viveu no palácio por 64 anos, até ser banido do país com a “instauração” da República.

Originalmente uma propriedade particular, passou às mãos de D. João VI por doação do comerciante libanês Elie Antun Lubbos, ou Elias Antônio Lopes, no dia 1º de janeiro de 1809. Ele preferiu se adiantar a ter a casa confiscada, como era de praxe para acomodar toda a comitiva vinda da Europa – há quem afirme algo entre 15 e 20 mil pessoas. Situado no alto do terreno, o palácio oferecia uma vista privilegiada: de um lado, a Baía de Guanabara; do outro, o Morro do Corcovado. Daí, inclusive, veio o nome da quinta.

O príncipe regente, então, mandou construir um caminho aterrado e margeado de postes com lâmpadas abastecidas por óleo de baleia para ligar a residência ao Paço Imperial, onde despachava, no centro da cidade.

Com projeto original de José Domingos Monteiro e provável participação do também arquiteto José da Costa e Silva, o prédio sofreu inúmeras alterações ao longo do tempo. Assim como ainda acontece na atualidade, as primeiras reformas, inspiradas no Palácio da Ajuda de Lisboa, começaram a acontecer a partir do casamento dos filhos de D. João VI. Primeira modificação a partir do enlace da filha mais velha, Maria Teresa, com o infante espanhol Pedro Carlos, em 1810. Outra grande obra, das mais importantes, teve início em 1816, por ocasião do casamento do príncipe D. Pedro com a Arquiduquesa Leopoldina da Áustria, se estendendo até 1821 e ficando a cargo do arquiteto inglês John Johnson. Da Inglaterra, o casal recebeu, ainda, um presente especial: o portão monumental, inspirado no pórtico da Sion House – atração turística do século XV localizada na periferia londrina – e que hoje adorna a entrada principal do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, que também fica na Quinta da Boa Vista.

Imagem do Portão Monumental do Paço Imperial da Quinta da Boa Vista - 1821 - Arquivo Nacional

A imperatriz Leopoldina era apaixonada pelas ciências naturais e teve forte influência na criação do Museu Nacional, então chamado de Museu Real. Em sua comitiva nupcial, ela trouxe uma verdadeira legião de naturalistas europeus, entre os quais Rochus Schüch, Johann Natterer, Johann Emanuel Pohl, Giuseppe Raddi e Johann Christian Mikan, que passaram a enviar caixotes com exemplares de minerais, da flora e da fauna para o Museu de História Natural de Viena. Logo esses cientistas passaram a realizar suas pesquisas também no Rio de Janeiro, onde iniciaram um belíssimo acervo. A partir de 1842, o Museu Real recebeu a última nomenclatura.

A partir da independência do país, D. Pedro I encarregou o arquiteto português Manuel da Costa de uma remodelação do palácio. Em 1826, o profissional foi substituído pelo francês Pierre Joseph Pézerát, que, cinco anos mais tarde, investido do cargo de engenheiro imperial, concluiu os trabalhos e conferiu o estilo neoclássico ao edifício.

A partir de 1847, houve a interferência, ainda, do arquiteto brasileiro Manuel de Araújo Porto-Alegre e, uma década mais tarde, do alemão Theodore Marx, que transferiu a Sala do Trono e a do Corpo Diplomático do térreo para o segundo pavimento. Até 1861, o pintor italiano Mario Bragaldi, adornou o Palácio com vários afrescos no interior dos aposentos. Em cima do torreão norte, o engenheiro Francisco Joaquim Bettencourt da Silva construiu, no ano seguinte, o Observatório Astronômico do Imperador, todo envidraçado, para permitir uma visão panorâmica do céu.

D. Pedro II foi o responsável pela criação do terceiro pavimento e pela instalação de 30 estátuas de deuses gregos em toda a extensão do telhado. Ele deu especial atenção aos jardins, embelezados, por volta de 1869, por meio de um projeto do renomado paisagista francês Auguste François Marie Glaziou. São dessa época a bela Alameda das Sapucaias, o lago e a gruta artificial.

Foto histórica da Alameda - Jardim Imperial - Quinta da Boa Vista - 1870 - Museu Nacional

Na próxima edição chegaremos ao Museu Nacional, em tempos da República. Não Percam!

Fontes:

@aclubtour

Arquivo Nacional

Biblioteca Nacional Digital

Museu Nacional – UFRJ

Instituto Moreira Salles

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