Anna Boechat e sua arte de transformar “lixo” em jóias – entrevista por Rodolfo Abreu

Anna Boechat e suas ecojóias da I Do Design – Divulgação

A designer curitibana Anna Boechat tem feito sucesso com suas ecojóias multicoloridas e de muito bom gosto de sua marca I DO DESIGN. O que mais chama atenção no seu trabalho é que as peças, contemporâneas e únicas, são feitas com materiais plásticos descartados. Concebidas através da mescla de diferentes técnicas artesanais, a designer transforma completamente resíduos gráficos, tampinhas e sacolas plásticas, que ganham nova vida e ajudam na preservação do meio ambiente. Anna tem mostrado o processo de trabalho nas suas redes sociais – o que desperta curiosidade, mas também gera conscientização das pessoas. O jornalista Rodolfo Abreu conversou com a designer em entrevista exclusiva para a Revista do Villa.

Designer Anna Boechat e suas criações - Divulgação

Sua formação profissional tem relação direta com a atuação como designer de jóias e acessórios?

R: Sou designer gráfica por formação. Tenho certeza que muito o que aprendi e vivenciei atuando como diretora de arte e designer ao longo de mais de 10 anos, me ajudam muito com o trabalho na hora de criar e produzir os acessórios. Mas nunca fiz nenhum curso voltado para joalheria ou design de produto.

Como surgiu a ideia de tranformar materiais plásticos descartados em ecojóias da sua marca I DO DESIGN? O que te inspirou ou com quem aprendeu a técnica?

R: Surgiu da vontade de ressignificar materiais sem valor e da necessidade de mudar o olhar sobre o que é descarte. Um projeto holandês que me inspirou muito foi o Precious Plastic. Eles ensinam conceitos básicos sobre reciclagem de plásticos, possuem projetos de código aberto para construção de maquinários (que eu ainda não tenho, mas gostaria de ter um dia), e formam uma comunidade ao redor do mundo inteiro. Aprendi o básico sobre como trabalhar com o plástico através de vídeos disponibilizadas pelo projeto e também com pesquisas que eu fui fazendo. Criei algumas etapas e adaptei outras para que conseguisse um resultado novo e autoral.

Você faz todo o processo, do recolhimento do material plástico até a finalização das peças e venda. Fale resumidamente um pouco do processo produtivo.

R: Boa parte dos materiais eu mesma coleto ou recebo de amigos, clientes e familiares que se importam em dar um recomeço àqueles plásticos que iriam para o lixo. Quando a gente para pra perceber a quantidade de plástico que cruzam o nosso caminho, é surpreendente. Depois de coletados, eu mesma separo tudo por cor (pois isso facilita na hora de criar e produzir, uma vez que eu não uso pigmentos e todas as cores são provenientes dos descartes). Todas as etapas acontecem na minha casa ou na casa da minha mãe. Ao longo do tempo fui adaptando alguns equipamentos ou solicitando a fabricação de maquinários viáveis de ter em um espaço pequeno, para a otimização do processo. A reciclagem do plástico que eu uso, basicamente se faz com calor e pressão, então eu escolho as cores que eu quero que componham as peças, derreto e prenso, para depois serem cortadas, lixadas, polidas e receberem todos os acabamentos responsáveis pelo efeito final da peça.

Você utiliza basicamente sacolas plásticas e tambinhas de garrafas PET, correto? Que tipos de classificação de plásticos são possíveis trabalhar na sua técnica?

R: No momento eu uso os plásticos classificados como número 2 e número 5, que são o PEAD e o PP respectivamente. Mas existem outros materiais de descarte no meio do processo, como o efeito metalizado das peças (proveniente de descarte gráfico), os papéis usados para a confecção das tags, que são sobras de outros trabalhos da gráfica (que separa as aparas para depois produzir as tags para mim) e também sobras de acrílico que eu venho experimentando ao longo do tempo para ampliar as opções.

Você trabalha sozinha ou tem ajuda de mais alguma pessoa na produção?

R: Por enquanto faço tudo sozinha. Da criação e produção das peças, às fotos, design gráfico, atendimento, vendas.. espero em breve poder contar com mais mãos!

Ecojóias I Do Design - Divulgação

Suas peças tem design autoral, são belíssimas e muito bem finalizadas. Como é o processo criativo, em especial para o controle e escolha de cores, padrões, formatos e finalização?

R: Para algumas peças eu crio um esboço do que quero construir. Especialmente as que eu opto por desenhar no computador para cortar na mini cnc que possuo (é uma máquina de corte ligada ao computador e que vai cortar exatamente o que eu desenhar). Para outras, eu permito que a criação seja construída de forma fluída conforme a própria produção se desenrola. Muitos resultados eu descubro com a experimentação e com os próprios “erros” no meio processo, que acabam se tornando efeitos interessantes. O que está no meu controle muitas vezes é a escolha das cores, mas até isso pode ser alterado com o aquecimento do plástico (principalmente no caso das sacolas que quase sempre mudam de cor ao serem derretidas). A textura final de cada chapa produzida é sempre uma surpresa, o que torna cada acessório único. Os formatos podem ou não ser padronizados (com o corte na mini cnc ou cortes individuais que eu faço a mão). Para parte das peças eu uso uma camada fininha de resina epóxi (para dar um brilho extra) e para outra parte eu deixo sem resina (que resulta num efeito fosco). Isso me permite trabalhar com ambos os efeitos na construção de um mesmo acessório ao adicionar duas peças com acabamentos diferentes.

Ecojóias I Do Design - Divulgação

Suas peças ganham desenhos abstratos e padronagens diversas, mas que algumas pessoas gostam de imaginar com que se parecem aquelas formas. Você gosta de estimular o lado imaginativo e sensorial dos seus seguidores?

R: Eu gosto demais! Como os “insumos” por si só já têm muita história pra contar e muito chão percorrido, eu gosto de compartilhar o que eu visualizo em algumas peças e adoro saber a história que cada um imagina também. Já fiz uma brincadeira no instagram pedindo para que as pessoas me dissessem o que conseguiam ver nas texturas criadas em algumas chapas e foi MUITO divertido.

Mesmo sendo peças únicas, você chegou a desenvolver alguma “coleção” com peças seguindo uma certa configuração para que tenham características correlatas?

R: Isso tem acontecido da última coleção pra cá. Agora que estou ampliando a gama de acessórios (incluindo colar, pulseiras), tem feito muito mais sentido criar peças que conversem entre si, para que possam ser usadas juntas ou de forma individual. Nas primeiras levas, eu ainda estava experimentando a aceitação do publico quanto ao resultado do material, as cores, etc. Agora com um pouquinho mais de experiência já consigo entender melhor o que funciona e isso me permite pensar no todo da coleção.

Seu trabalho tem chamado atenção nas redes sociais. Inclusive eu descobri você por um vídeo seu no TikTok. Qual o feedback que você está tendo das pessoas tanto sobre a beleza e plasticidade das peças, quanto sobre o processo de upcycling?

R: Eu estou amando a entrega do TikTok. E amando mais ainda o retorno das pessoas! Isso tem me dado um gás e uma confiança absurda em saber que tem algo de certo nesse caminho que eu escolhi. Trabalhar completamente sozinha me dá autonomia pra fazer o que eu quiser, mas também se torna pesado quando as dúvidas e as dificuldades surgem. Então perceber que tem muita gente validando meu trabalho e compartilhando dos mesmos valores, me estimula a continuar. E uma das coisas que eu mais gosto é de perceber a surpresa das pessoas quando descobrem do que são feitas as peças. Fico com a sensação de dever cumprido ao notar que o resultado final se distanciou completamente do material desvalorizado que eu tinha no início.

Como são feitas as vendas dos produtos hoje em dia? Você é de Curitiba e envia para todo o Brasil e para o mundo?

R: Durante a pandemia as vendas foram apenas pela internet (especialmente Instagram e WhatsApp) e este ano voltei a participar de alguns eventos presenciais pontuais. Todas as peças podem ser enviadas pelo correio para todo o Brasil (já tive peças enviadas a todas as regiões do país) e estou estudando formas viáveis de exportar também, um sonho que eu espero viabilizar!

Você também se tornou modelo da I DO DESIGN ao posar pra fotos e vídeos que apresentam as suas criações. Como tem sido a experiência?

R: Quando eu tinha 18/19 anos eu me meti a querer ser modelo profissional hahaha. Foi uma fase bem curta, mas muito bacana de descobertas. Logo em seguida eu passei em Artes Gráficas e me dediquei à faculdade, então foi uma experiência muito breve. Naquela época eu era bem magrinha, mas era o auge da magreza na moda, então nunca estava magra o bastante, foi uma das coisas que me fez deixar isso de lado. Com o início da I DO, eu não tive muita escolha, pois não tinha muitos recursos pra investir em cada foto (como cada peça é única, uma vez vendida, aquela foto deixa de ser útil comercialmente e eu preciso sempre produzir novas imagens). Então foi por praticidade e economia que eu resolvi me contratar como modelo hehehehe. E no fim, o que era pra ser temporário, ficou. Passada a insegurança inicial (mentira, ela sempre existe heheh mas era maior no começo), agora não vejo problemas em ser minha própria garota propaganda e botar em prática a modelinho que habita em mim.

Quais são seus próximos passos? Há planos criação de site para e-commerce, para expansão da produção, para a inauguração de loja física?

R: O site para e-commerce já existe, na verdade. Só estou com um pouco de dificuldade em manter ele atualizado justamente por cada peça ser única. Toda vez que eu crio peças novas, é preciso além de fotografar, também catalogar e subir com descrições uma a uma no site. Acaba sendo mais prático ter um catálogo online onde as pessoas possam visualizar as peças disponíveis e falar comigo a respeito. Mas sei que isso limita um pouco as vendas, nem todo mundo quer ter que abrir uma conversa com outra pessoa pra realizar uma compra, então sei que eu preciso entregar mais praticidade para os clientes comprarem de forma independente e já estou trabalhando nisso!

Quanto a expansão da produção, o meu sonho no momento é ter um atelier onde eu possa concentrar todas as etapas sem precisar depender dos cômodos da minha casa hehee. E acredito que isso acontecendo, se torne possível a capacitação de pessoas que me ajudem nessa expansão. A loja física está nos planos com certeza e espero chegar lá um dia.

Ecojóias I Do Design - Divulgação

Alguma proposta de colaboração com marcas até o momento?

R: Tem sim! Espero muito em breve poder compartilhar com vocês. E estou super aberta para outras oportunidades também.

Ao divulgar vídeos nas redes sociais mostrando o processo, você acaba despertando a conscientização ambiental das pessoas, além de estimular trabalhos semelhantes. Qual a importância dessa conscientização no seu trabalho?

R: Eu comecei a marca pesquisando muito na internet e sei do quanto é valido a gente se deparar com projetos que nos inspirem. Pensar que eu possa despertar qualquer tipo de consciência em quem assiste (seja na valorização do trabalho autoral ou na nossa responsabilidade ambiental enquanto indivíduo e também empresa), é um ganho que vai além do que eu posso imaginar, o melhor legado que uma marca pode deixar.

Assista Anna Boechat falando do processo de criação da I Do Design:

Acompanhe nas redes sociais:
Instagram: https://www.instagram.com/idodsgn/
TikToK: https://www.tiktok.com/@idodsgn/
Site: https://idodesign.art.br/

Entrevista por Rodolfo Abreu
Imagens: Divulgação

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