Pedro Stephan: Coluna Paulicéia em Rosa - Salve o Samba Queer

Luiz Gustavo Reis é o criador do grupo de samba Sambixas, ele se encontra no olho do furacão do movimento do samba lgbti em Sampa. Inúmeros grupos a maioria formado por mulheres lésbicas movimentam a cena cultural da paulicéia. As Sambixas é um grupo misto, feito por gays e lésbicas que toca samba com uma pegada queer. Eles estão no bojo de um movimento maior. De uns 10 anos para cá São Paulo viveu uma explosão no mundo do Samba: o carnaval se tornou um dos maiores do Brasil. Como a cidade é a mais expressiva em formações culturais lgbti surgiram mais de uma dezena de grupos de samba lgbti+ trazendo as cores dos arco íris pro mundo do Samba.

Mas a trajetória de Luiz Gustavo até chegar as sambixas não foi fácil. Todos pensamos que o mundo do samba acolhe os lgbti+ mas não é bem assim. Nessa entrevista ele conta como foi encontrar seu espaço como gay sambista.

p-Hoje em dia estamos vendo uma movimentação das mulheres lésbicas mas não só delas, é um movimento lgbt+i em geral de se colocar no samba. Gostaria que você falasse como isso aconteceu e porque aconteceu?

r-Eu sou nascido e criado no meio do samba, meus pais se conheceram num samba e essa foi minha vivencia desde sempre. E o que eu sempre testemunhei é que as mulheres em geral no samba sempre foram excluídas ou ficavam em segundo plano. E aí mais recentemente veio o movimento de mulheres no samba, mas não se colocavam como mulheres lésbicas. Eram mulheres no samba. Mas elas eram todas lésbicas. Esse movimento todo, que é recente, tem uns dez anos e se fortaleceu de uns 5 anos pra cá, me inspirou a criar as Sambixas em 2019. A primeira apresentação que a gente fez foi no bar Pau Brasil que é dos meus pais, houve essa facilidade. Quer dizer fácil não foi, porque tive que convencer meus pais que aquilo era importante para mim e comercialmente também para eles.

p- Existe homofobia no samba? Como a coisa se configura na ala musical do samba?

r-Sim existe, mas de uma maneira gaiata, ridicularizando e zoando as pessoas, existem letras de sambas machistas.

p-Isso é mais no meio da musica? Porque nos barracões tem muito gay e trans.

R-Para os sambistas que trabalham com a boemia existe uma compreensão de samba. Para os que trabalham com carnaval existe outra. E existe um preconceito das pessoas que trabalham na boemia com as que trabalham no carnaval. Eles dizem que sambista de carnaval faz samba um dia só do ano (o dia do desfile). Enquanto ele o boêmio defende todos os dias. Então existe aí uma divisão duas alas dentro do mundo do samba. Eu sempre fiz parte do meio da boemia, nunca desfilei em escola, e tive contato com gays das escolas de samba. Não posso afirmar com certeza como é a coisa dentro de uma escola de samba, mas no meio da boemia é bem machista e homofóbico.

p-E existe uma “postura” padrão hetero nesses grupos?

r-Tem que ser ostensivamente machista, tem que pegar a mulherada, se isso não rola já sabem que você é esquisito, se rebola quando canta, eles vem te cobrar, como fizeram comigo. Se fica claro que você é gay param de te convidar para as rodas de samba.

p-Quando você se descobriu gay como foi pra ti se colocar nesse mundo do samba?

R-Foi complexo porque eu tive que lidar com a homofobia. Eu cheguei com 19 anos pra minha mãe e disse “olha eu sou gay, e vou ser feliz assim” ela disse que aceitava mas depois fez um pedido pra no bar eu “preservar meu pai”. Nessa época eu não era sambista, não sabia tocar nada, nem cantar.

p-Como foi que se iniciou no samba então?

r-Então eu comecei a aprender a tocar os instrumentos e a participar das rodas mas sempre com medo de dar pinta, sempre enrustido. Eu vivi o samba dentro do armário inclusive tive que ficar com mulheres, varias, pra provar o que eu não era gay. E dessa maneira eu entrei nas rodas de samba e fiquei conhecido e aceito.

P- Mas teve uma hora que isso acabou, como foi?

r-Quando eu tinha 29 anos ou seja 10 anos depois de ter me assumido para minha mãe eu resolvi que já tinha feito muito pra não expor meu pai, e já estava na hora de viver plenamente. E enfrentei o mundo do samba: enfrentei o machismo, a homofobia, as pessoas, comecei a levar meu namorados pras rodas de samba.

p-E como foi esse enfrentamento.

r- Foi duro, ouvimos muitas coisas desagradáveis, fomos discriminados, mas acabamos nos impondo

p-E qual foi a consequência de você ter se liberado fora e dentro do samba?

R-Eu comecei a pensar em que eu poderia fazer para contribuir com a militância e resolvi criar e cultivar um samba lgbt, isso foi recente de cinco anos pra cá. As Sambixas nasceu em consequência disso.

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