Flavio Santos: A Companhia Nacional de Navegação Costeira

Passageira no deck do Anna Nery. 1962. Revista O Mundo Ilustrado. Acervo da Biblioteca Nacional

“Peguei um Ita no norte
Pra vim pro Rio morar
Adeus, meu pai, minha mãe
Adeus, Belém do Pará

Ai, ai, ai, ai
Adeus, Belém de Pará”
(Trecho da canção “Peguei um Ita no Norte”, de Dorival Caimmy, de 1945)

Passageira no deck do Anna Nery. 1962. Revista O Mundo Ilustrado. Acervo da Biblioteca Nacional

Em 7 de janeiro de 2022 foi sancionada a lei n.14.301 pelo Governo Federal. Batizada de “Programa de Incentivo ao Transporte por Cabotagem”, foi apelidada de “BR do Mar” e tem a pretensão de resgatar e estimular a navegação entre portos do território nacional. No Brasil, o chamado “rodoviarismo”, que teve seu auge no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1960), dominou os orçamentos federais e estaduais em toda a segunda metade do século XX até os dias atuais, em detrimento das opções ferroviárias e marítimas de transporte, que entraram em franco declínio.

Navio Itamaracá. Ex Parkdale, contruída em 1891. Revista Fonfon. Ano 1917. Acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

Para contar a história da Companhia Nacional de Navegação precisamos voltar ao ano de 1882, quando os irmãos Antônio Martins Lage Filho e Alfredo Lage abriram a firma Lage & Irmãos, para o negócio de carvão de pedra, reboque de embarcações e custeio de armazéns – “trapiches”, como se dizia na época, o primeiro situado na Ilha do Vianna, baía de Guanabara. Com sede na rua 1.o de março, n.o 75, 1.o andar e capital social de Rs 300:000$000 – trezentos contos de réis – era a sucessora de Antônio Martins Lage & Filho, de 1873.

Propaganda da Costeira. Jornal O Paiz. Ano 1892. Acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

A empresa dos Lages, basicamente, foi de negócio de transporte de carvão, extraído no sul do Brasil (estado de Santa Catarina, em parceria com o Visconde de Barbacena) ou importado de Cardiff para fornecimento às ferrovias nacionais.

Propaganda da Costeira Jornal. 1915. Acervo da Biblioteca Nacional.

Já sob o novo regime republicano, em 1.o de janeiro de 1891 Northon, Megaw & Co. venderam a empresa de Navegação a Vapor Costeira para Lage & Irmãos. A firma estrangeira fazia o serviço de transporte de marcadorias por comissões entre os portos do Rio e do sul do Brasil. A frota da Northon, M. & Co. era composta pelos vapores Canning, Chatam, Cavour e Cabral. Também incorporaram todo material e dependências de transporte dos vapores da Companhia Liverpool Brazil & River Plate Mail Steamer.

O Itaquatia sendo construído na Ilha do Vianna. Estaleiro de Lage & Irmãos. Revista Fonfon. Ano 1917. Acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

Com esse material flutuante de segunda mão, foi fundada no dia 7 de fevereiro de 1891 a Companhia Nacional de Navegação Costeira. A 1.a assembleia da companhia foi em fevereiro de 1882, na sede de Empresa de Obras Públicas. O capital inicial foi de 5.000 contos de réis, dividido em 25 mil ações. A nova firma era liderada por Antonio Martins Lage Filho e pelo comendador Luiz Augusto Ferreira de Almeida. Lage & Irmãos eram os principais acionistas. Com endereço na rua 1.o de março, n.o 49, no dia da inauguração da empresa partiu um navio da Costeira rumo ao porto de Pelotas, estado do Rio Grande do Sul.

Jorge Lage, ao centro, no navio Itamaracá. 1917. Semanário Fon Fon. Acervo da BNRJ

No anos iniciais, a empresa se empenhou em adquirir embarcações de companhias em dificuldade financeira e mandou construir navios novos em estaleiros ingleses para tornar robusta a flotilha. Todos os vapores eram rebatizados com nomes em tupi-guarani, iniciadas com o prefixo “Itá” – pedra.

Paquete Itagiba deixando a Ilha do Vianna, baia de Guanabara. 1918. Semanário Fon Fon. Acervo da BNRJ

O desempenho da companhia foi regular, apesar dos anos turbulentos do início da República, com as Revoltas da Armada (1891-1894) e a crise dos preços internacionais do café. Muito embora as condições de operação terem melhorado com a reforma do porto do Rio de Janeiro concluídas no governo do presidente Rodrigues Alves (1902-1906), dando fim aos velhos trapiches, a Costeira começa a passar por problemas financeiros, preferindo acabar com algumas linhas de viagens e vender embarcações. Só em 1908, com o decreto n.o 6.923 de 9 de abril, que concedeu isenções de alguns direitos aduaneiros, a Costeira retoma seu programa de aquisição de navios.

A flotilha da Costeira na Ilha do Vianna. 1920. Semanário Fon Fon. Acervo da BNRJ

Em 1913 morre Antonio Martins Lage Filho e assumem os filhos Antônio e Jorge Lage. Com o conflito mundial entre 1914-1918, o preço do carvão dispara novamente, incentivando a produção nacional. A Costeira se vê mais uma vez em dificuldade e tem que optar por reduzir viagens e rodar com navios mistos, de carga e passageiros. Para adequação aos novos tempos, a companhia emite debêntures em 1915 e eleva seu capital para 11.000 contos de réis e ações com subscrição de Lage Irmãos. O governo, durante o período de guerra, solicitou navios da companhia e interferiu diretamente no mercado de marinha mercante. Em 1918 os irmãos Lage, Antônio e Jorge, morrem devido à epidemia mundial de gripe espanhola. Assume o diretor Henrique Lage.

O requinte do interior do Itaquatiá. 1920. Semanário Fon Fon. Acervo da BNRJ

Os anos 20 marcam o auge da Costeira. A companhia adquire novos navios mistos, alguns com câmaras frigoríficas. São encomendadas 6 novas embarcações, na Inglaterra e na França, continuando a linha Sul-Norte. Em acordo com o governo federal, mantém a linha deficitária Recife-Belém.

Com a chamada “Revolução” de 1930, o governo inicia uma série de perseguições políticas e Henrique Lage é preso no Rio de Janeiro. A Costeira se adapta ao novo cenário político e social, constrói moradias para seus trabalhadores e ajuda a criar a “Caixa de Socorros Ita”.

Fatos históricos da década de 1940 mudaram a sorte da Costeira. Sob a desculpa de “reorganizar a Marinha Mercante” brasileira, o ditador Getúlio Vargas, baixa o decreto 3.100 de março 1941, criando a Comissão da Marinha Mercante. Esse decreto simplesmente revogava toda categoria de subvenções e auxílios a armadores e empresas de navegação nacional.

O navio bombardeado Itagiba. 1942. Revista da Semana. Acervo da Biblioteca Nacional.

Nos primeiros meses do ano de 1942 foram torpedeados vários navios de bandeira nacional na costa brasileira, por obra de submarinos alemães, incluindo alguns da Costeira, como o velho Itagiba, construído em 1915 na Inglaterra pelos armadores Alisa S.B. & Company. Essas ações nazistas colocaram a empresa de joelhos.

Na manhã do dia 2 de julho de 1941 faleceu o industrial Henrique Lage, na sua residência da rua Jardim Botânico, na antiga chácara da família Faro, deixou a viúva, a cantora Dona Gabriela Bezanzoni Lage.

Henrique Lage. Revista Brasil Industrial. 1919. Acervo BNRJ

Por fim, por intermédio do decreto-lei n.o 4.648 de 2 de setembro de 1942, foram considerados de “interesse para a economia nacional e definitivamente incorporados ao patrimônio da União” o patrimônio da Costeira, compreendendo sua frota, imóveis, as ilhas do Viana, Santa Cruz, Engenho, Manuel João, Caximbau e a fazenda da Sapucaia, dentre outros bens, passando para o patrimônio do Ministério de Viação e Obras Públicas. Estavam incorporados à União todos os bens da Organização Lage.

Depois de uma década operando com uma frota reduzida, a Costeira “renasceu” com uma nova encomenda de navios modernos, apelidados de “Cisnes Brancos”. Sob o comando do Almirante Eduardo Secco, no início dos anos 60, a Costeira volta-se para o turismo com ajuda do governo de João Goulart (1961-1964). Os novos navios foram batizados de: Princesa Leopoldina, Princesa Izabel, Anna Nery e Rosa da Fonseca. Para decoração interna foram encomendados painéis decorativos à artistas brasileiros consagrados: Djanira, Volpi, Di Cavalcanti, Dacosta, Iberê Camargo. Os quadros foram exibidos originalmente no Museu Nacional de Belas-Artes e no de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

O decreto federal n.o 51.241 de 23 de agosto de 1961 instituiu a Comissão para a unificação do Lloyde Brasileiro e a Costeira. A velha empresa se tornou um simples estaleiro de reparos do Lloyde.

Painel de Di Cavalcanti para os novos navios da Costeira. 1960. Revista Brasil Constroi . Acervo da Biblioteca Nacional.

Problemas mundiais, crises econômicas e principalmente a interferência governamental selaram a sorte da Costeira. Nem a proximidade com o pode livrou a família Lage de perder seu patrimônio. Com um litoral com mais de 7.500 quilômetros de extensão e com quase 80% da população morando até 200 km do litoral, o Brasil não pode abrir mão do transporte por cabotagem. Com o novo marco regulatório do setor, se espera dar início a um novo ciclo investimentos com segurança jurídica.

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