Waldir Leite: Coluna Gay Soçaite - O namorado do Ministro

A capa do livro

O segundo semestre de 2022 promete ser animado no Brasil com a realização do Rock In Rio, as eleições presidenciais, a Copa do Mundo e as comemorações pelos duzentos anos da nossa independência. E nesse ambiente de tantos acontecimentos marcantes a boa literatura se faz presente com o lançamento do livro “O quarto estava gelado e escuro”, do jornalista Zé Ronaldo Muller.

Uma história de paixão pela vida ambientada no glorioso e distante ano de 1983, quando Madonna lançou seu primeiro disco e Richie alcançou o primeiro lugar das paradas de sucesso com a música Menina Veneno.

Numa linguagem envolvente e charmosa, o livro conta a história do caso amoroso de um fictício ministro do governo João Batista de Figueiredo e seu jovem namorado.

Quando vai participar de uma série de eventos em Nova York o ministro dá de presente ao namorado uma temporada na cidade, incluindo passagem aérea e hospedagem no hotel Plaza. A ideia é que nas horas de folga o ministro possa se deliciar com Pedro, seu jovem amante, longe dos olhos e ouvidos da imprensa brasileira.

Pedro, que é o narrador da história, deslumbrado com sua primeira viagem ao exterior, decide aproveitar ao máximo os encantos de Nova York. Com Felipe, um amigo de infância, freqüenta os lugares mais badalados da cidade, as festas mais incríveis e conhece figuras da sociedade, do meio artístico, da mídia e também da máfia e da bandidagem chique.

O autor Zé Ronaldo Muller é um jornalista com larga experiência no colunismo social, já trabalhou com craques como Ibrahim Sued e Hildegard Angel. Então ele trás para sua literatura o glamour, a narrativa e o veneno tão característicos desse tipo de jornalismo. Sendo assim, o romance tem uma linguagem saborosa, gostosa de ler, que dá ao leitor vontade de estar participando daquela aventura jovial, glamurosa e festiva.

Num dado momento da história os garotos Pedro e Felipe conhecem um jovem mafioso que faz a eles uma proposta de risco máximo. Oferece uma boa quantia para que eles levem para a Itália uma certa quantidade de cocaína. Depois de uma noitada onde puderam assistir a um concerto da turnê “Serious Moolight”, de David Bowie, eles decidem arriscar viajar à Europa levando consigo um pequeno carregamento de pó. Os traficantes de primeira viagem se metem em mil aventuras, mas acabam sendo bem sucedidos nessa louca aventura. Como prêmio, além de uma quantia em dinheiro, ganham o direito de fazer um cruzeiro pela Riviera Francesa com um grupo de italianos descolados. Nesse ponto o livro descreve com encanto e paixão a beleza das praias, das cidadezinhas, dos portos, restaurantes e lugares bacanas da região, onde novas tramas envolvem os jovens aventureiros do Brasil.

“O quarto estava gelado e escuro” conta basicamente essa história, com personagens adoráveis, que o leitor teria muito prazer em conhecer. Mas a grande sacada do livro é que toda essa trama elaborada com charme e inteligência tem como pano de fundo a explosão da epidemia da Aids que, naquele momento histórico, começava a assustar verdadeiramente as pessoas. Tudo acontece no período em que o mundo começa a ter consciência que havia uma epidemia dolorosa e cruel pronta a mudar os destinos da humanidade.

Com um jeito muito particular de contar sua história, Zé Ronaldo Muller criou um livro que tem tudo para ser a sensação literária da agitada temporada primavera-verão que está por vir.

A noite de autógrafos será no dia 18 de julho, na Livraria Argumento, no Leblon.

Foto do autor, Zé Ronaldo Muller, com a jornalista Hildegard Angel.

Trecho do livro “O quarto estava gelado e escuro”.

Às oito e meia estávamos dentro do Waldorf Astoria, na porta do salão do jantar do Homem do Ano. Os smokings ficaram prontos a tempo e os sapatos brilhando. As recepcionistas procuraram na lista e nossos nomes não estavam lá, é claro. Eu pensei ou eu falo algo agora ou eu volto para o hotel.

– Nós estamos na mesa do Ministro.

A senhora olhou para mim de dentro dos seus óculos e disse.

– Vocês podem esperar um minutinho?

Eu travei. Ela sumiu pelos corredores com seu vestido de crepe preto. Acendi um cigarro e me afastei daquela fila de pessoas bem vestidas. Instantes. E quando eu estava apagando o meu cigarro vi a mulher voltando em minha direção.

– Vocês vão ficar na mesa quarenta e sete, está bom para vocês?

– Eu não sei. Não vi a mesa quarenta e sete, respondi na lata. Felipe deu um pivô na minha frente. A mulher mostrou um mapa das mesas. Olhei com atenção enquanto ela dizia.

– Nessa mesa estão o cônsul brasileiro em Nova York com a mulher e o casal Figueiredo. E um grupo de americanos.

– Tá ótimo, eu disse. Eu te agradeço. E onde é a mesa do ministro? Eu quero passar lá para um alô.

Ela arregalou ainda mais os olhos.

– É a mesa três. Fica bem em frente ao palco.

Entramos no salão e Felipe perguntou.

– Você vai passar lá? Não acredito.

– Sim, claro! Vou passar lá para um alô.

Ainda estavam todos em pé, próximos aos seus lugares. Fui indo em direção as mesas próximas do palco e percebi Aurélio, o secretário do ministro, vindo em minha direção. Eu parei.

– Oi Aurélio, tudo bem?

– Nossa que trabalho você me deu agora. Porque você não me disse que queria vir?

– Onde está o Nelson? Eu perguntei.

– Está ali na frente falando com o Secretário de Estado Americano.

– Vamos lá, eu falei. E ele pulou na minha frente.

– Você fica aí parado e eu trago ele aqui.

– Não, eu vou lá.

Eu andei e Aurélio passou na minha frente e caminhamos uns quinze passos, ele na frente, eu atrás e Felipe atrás de mim. O ministro estava de costas para mim conversando e eu notei que não era mais o Secretário que estava com ele.

– Boa noite, senhor ministro.

Ele virou e abriu um sorriso.

– Soube que você estava aqui. Que bom!

Apertou minha mão, me puxou e me abraçou.

– Meus parabéns, eu disse.

– Mas eu não sou o homenageado.

– Mas, por você estar aqui eu sei que você é a autoridade máxima do nosso país nessa noite.

Ele sorriu.

Fomos para nossa mesa e eu quis ir embora logo depois do primeiro prato.

– Vamos para o bar, ninguém vai notar nossa falta aqui, eu disse.

No bar, quarenta minutos depois, eu tinha tomado três taças de champanhe.

– Você não quer tomar um desses? Perguntou Felipe me mostrando um comprimido.

– O que é isso?

– Não sei o que é. O Garret me deu antes de irmos embora.

– Me dá um. Você tem dois?

– Tenho cinco, ele respondeu.

– Então me dá dois.

– Você não vai dar uma bola para o ministro?

Felipe deu uma gargalhada alta e emendou num tom debochado.

– Vai que ele morre.

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