Waldir Leite: Coluna Gay Soçaite - Oitenta vezes Caetano!

O mês de agosto chega com uma comemoração muito especial para a vida cultural brasileira: Caetano Veloso completa 80 anos no dia 7. Uma idade que merece ser celebrada.

Um dos maiores nomes da cultura brasileira de todos os tempos. Seja como compositor, cantor, poeta e escritor ele sempre foi brilhante. Mas também como pensador, polemista e filósofo ele se mostrou grande. Um artista que nunca deixou de ter um entendimento muito claro do que significa o Brasil e o seu povo.

Em sua esfuziante carreira Caetano Veloso sempre teve uma postura de simpatizante com relação a causa LGBT. É autor de um dos maiores hinos gay da música brasileira, a canção Menino do Rio. A música retrata com poesia e sensualidade a beleza dos rapazes cariocas, sonho de consumo de homossexuais do mundo inteiro. Composta para ser uma versão masculina da “Garota de Ipanema”, de Tom e Vinícius, a letra da música pode ser interpretada como uma canção gay, na medida que a letra foi escrita por um homem. “Menino do Rio / Calor que provoca arrepio / Dragão tatuado no braço / Calção corpo aberto no espaço”. Na seqüência a letra apresenta versos como “tensão flutuante do Rio”, “que o Havaí sejá aqui” ou “quando eu te vejo eu desejo o teu desejo”. Caetano acertou em cheio o coração dos gays quando compôs Menino do Rio. Mas não apenas nessa música ele foi simpatizante da “causa avante”, como diria Maria Bethânia. Em Cajuína os versos dizem: “A que será que se destina / pois quando tu me deste a rosa pequenina / vi que és um homem lindo e que se acaso a sina / do menino infeliz não se ilumina”.

Outra que toca fundo o coração dos gays é a música Salva-vida, lançada no álbum Uns. O salva-vidas é, desde sempre, um fetiche sexual dos gays de qualquer praia. E Caetano fez uma música para os salva-vidas com versos que são puro deleite. “Místico pôr-do-sol no mar da Bahia / E eu já não tenho medo de me afogar / Conheço um moço lindo que é salva-vida / Um da turma legal do Salvamar / Que é fera / Na doçura, na força e na graça”. Os versos da segunda parte da canção completam a celebração aos homens do mar. “Sólido simples vindo ele vem bem Jorge / Límpido movimento me faz pensar / Que profissão bonita pra um homem jovem’.

Um dos maiores sucessos de Caetano, “Esse Cara”, gravada inicialmente por Bethânia, também permite uma leitura de tons homossexuais. “Ah, esse cara tem me consumido / A mim e a tudo o que eu quis / Com seus olhinhos infantis / Como os olhos de um bandido”. Já a música “Ele me deu um beijo na boca” é um refinado discurso contra todas as formas de caretice.

A verdade é que Caetano nunca teve medo de dar pinta através de suas canções. Tem “Leãozinho”, uma ode a um rapaz do signo de leão. Tem também a irreverente “A filha da Chiquita Bacana”, um hino do carnaval da Bahia. “Eu sou neguinha” é uma resposta bem humorada a um sucesso carnavalesco chamado “Eu sou negão”, do cantor Gerônimo. Na gravação original do frevo “Chuva, suor e cerveja” uma voz masculina grita ao fundo “viva os sapatões”, no final da música.

Na década de 1970, ainda na fase inicial de sua carreira, Caetano Veloso provocava estranhamento no público com seus longos cabelos, roupas coloridas e colares que tinham uma inspiração hippie. Mas que lhe davam certo ar andrógino, diferente de outros astros da MPB como os varões Chico Buarque e Paulinho da Viola. Foi uma época confusa, pois o artista vivia sendo investigado pelo governo militar, que o via como uma ameaça ao seu status quo. Em 1973, quando voltou de seu exílio forçado em Londres, Caetano Veloso gravou um disco chamado “Araçá Azul”. O repertório era totalmente experimental, com músicas difíceis de compreender, que provocaram estranhamento no público e na crítica. Ninguém entendia direito o que ele estava propondo com aquele trabalho. Na contracapa havia algo escrito que parecia justificar o trabalho. Estava escrito: “Um disco para entendidos”, o que dava a entender que o repertório era complexo porque o disco havia sido feito para quem entendia de música. Na capa e na contracapa do álbum, fotos de um jovem e sensual Caetano Veloso na praia, usando uma minúscula sunga vermelha. Acontece que, naquela época, quando os homossexuais viviam confortavelmente trancados em seus armários, a palavra “entendido” era um código para identificar homossexuais. No fechado universo gay da época, quando se queria dizer que alguém era homossexual se dizia que ele era “entendido”. Assim, a foto de Caetano seminu com a legenda, “um disco para entendidos” para os gays da época serviu para afirmar que aquele era um disco para homossexuais. Nem os críticos de música, nem os espiões do governo militar, jamais perceberam esse ato de transgressão, irreverência e deboche de Caetano Veloso.

80 Músicas

No momento em que Caetano Velosocompleta 80 anos de vida, com uma incrível folha de bons serviços prestados ao Brasil, fizemos uma lista com 80 músicas do repertório do artista, como uma maneira de lhe desejar um feliz aniversário!

Qual é, baiana? – A singela história de uma menina que “é só de brincadeira e só dá bandeira”. Tem versos irresistíveis, como: “Domingo no Porto da Barra, todo mundo agarra, mas não pode amar”.

Neguinho – Música feita para um disco de Gal Costa. Uma finíssima crítica ao estilo de vida brasileiro. Perfeito senso de observação.

Help – A música dos Beatles é uma obra-prima e Caetano a recriou de forma brilhante com uma interpretação sensível e doce.

Sampa – Uma ode a cidade de São Paulo feita com uma poesia tão delicada quanto inteligente. “Quando eu te encarei frente a frente não vi o teu rosto”. Para depois justificar. “É que Narciso acha feio o que não é espelho”.

Dans Mon Ile – Um clássico da “chanson française”, sucesso do cantor Henri Salvador, que Caetano gravou com estilo e personalidade. Bela canção.

Cajuína – Comunhão perfeita entre letra, música e suingue. “Pois quando tu me deste a rosa pequenina, vi que és um homem lindo e que se acaso a sina…”

Menino do Rio – A mais perfeita tradução do homem carioca em forma de canção. “Calor que provoca arrepio, dragão tatuado no braço, calção, corpo aberto no espaço”. Arraso total!

Cavaleiro de Jorge – Singela canção em homenagem a São Jorge. Bacana, bacana, super bacana…

Jorge da Capadócia – A música é de Jorge Benjor, mas a gravação de Caetano é perfeita. Beleza pura.

Ilusão à toa – A música de Johnny Alf, uma canção de amor reprimido, ganhou uma linda interpretação de Caetano no show Obra em Progresso. Sucesso no You Tube.

Tigresa – A letra é uma crônica sobre o desencanto que a vida impõe ao ser humano.

For no one – Caetano canta Beatles como ninguém. Sua versão dessa música é muito mais bonita do que o original. Sorry, rapazes de Liverpool.

Qualquer Coisa – A letra é um delírio poético que brinca com os sons das palavras. Barato total. “Mexe qualquer coisa dentro doida, já qualquer coisa doida dentro mexe…”

Língua – Outra letra que brinca com os sons das palavras. Linda a homenagem a Scarlet Moon de Chevalier. E Arrigo Barnabé. E Maria da Fé!

Você não entende nada – “Você traz a Coca-Cola, eu tomo, você bota a mesa, eu como”. Essa música é bem Caetano…

It´s a long way – Linda canção bilíngüe, composta na época do exílio em Londres. Uma das mais bonitas do repertório do artista.

Trem das cores – Romantismo tropicalista em grande estilo.

Sonhos – Linda canção romântica do cantor Peninha, que Caetano recriou com lirismo. 

Irene – Uma singela canção sobre a saudade da terra natal. A saudade traduzida na simples lembrança da risada de sua irmã. Caetano tem irmãs maravilhosas.

Pecado original – Obra-prima. O cantor e o compositor num encontro perfeito. Canção feita para o filme A dama do lotação, com Sonia Braga.

Nature Boy – Um clássico da canção americana encontrou um eco perfeito na interpretação do artista baiano. Podre de chique.

Terra – Uma apaixonante canção sobre a transitória passagem do homem pela vida. Um furor existencialista.

Samba e amor – Sexy composição de Chico Buarque em que Caetano deita e rola na interpretação.

Da maior importância – Um discurso melancólico sobre os (des)caminhos da paixão.

Onde eu nasci passa um rio – Em seu primeiro disco Caetano já falava do Subaé, o rio que corta Santo Amaro da Purificação.

Quero um baby seu – Um pop dançável e charmoso gravado no disco Outras Palavras. “Como num sonho eu encontrei você perfeita pra mim…”

Rapte-me camaleoa – Mais um exemplo de sua mania de brincar com os sons das palavras.

Chão da praça – Antiga música de carnaval de Moraes Moreira recriada com muita alegria no show Cê. O carnaval da Bahia agradece e Moraes Moreira merece.

London, London – Canção romântica e nostálgica, que carrega um tanto de revolta e melancolia. Tempos do exílio.

Deusa urbana – Canção divertida sobre o medo de se apaixonar com uma letra irreverente e sensual. Show de bola.

Chuva, suor e cerveja – Umas das mais perfeitas músicas de carnaval. Descreve com perfeição o espírito de quem está entregue a folia. Não se perca de mim…

Piaba – Um afrontoso frevo baiano cheio de suingue e malícia. “Um cardume de surfistas, anda zanzando à sua procura…”

Fora da ordem – Um tratado, em forma de canção,  sobre os desencontros da vida moderna.

Vaca profana – Irreverente discurso contra a caretice no ritmo de um surpreendente iê-iê-iê.

O estrangeiro – Um discurso inflamado sobre tudo, a partir da visão da baía da Guanabara. Obra prima de letra, música, arranjo e interpretação.

A filha da Chiquita Bacana – Uma marcha de carnaval perfeita. “Eu sou a filha da Chiquita Bacana, nunca entro em cana porque sou família demais…”

O conteúdo – “Deita numa cama de prego e cria fama de faquir” é apenas o início de uma dissertação sobre a vida nos anos de 1970. São 9 minutos de puro deleite.

De noite na cama – Maliciosa balada sobre uma paixão não correspondida. Muito boa.

Ive Brussel – Caetano adora Benjor e gravou com ele essa que é uma das mais belas canções da MPB.

Haiti – Mais um discurso em forma de canção de protesto. Uma jóia rara.

Esse cara – É uma das músicas mais incríveis do Caetano. “Ele está na minha vida porque quer, e eu estou pro que der e vier”. Então, tá!

A luz de Tieta – Música bacana, feita para o filme de Cacá Diegues, com Sonia Braga fazendo mais uma personagem do Jorge Amado. Perfeita para dançar no carnaval ou na pista de dança. Legal demais.

Giulietta Masina – Uma sofisticada homenagem ao cinema, uma das grandes paixões do artista.

Shy Moon – Canção romântica e melancólica, em tom futurista.

Comeu – Antropofágica e sensual canção de amor. “Ela comeu meu coração de galinha num xinxim, ai de mim…”

Nine out of ten – Caetano mais uma vez brinca com os sons das palavras. Dessa vez em inglês.

Salva-vida – Divertida canção de verão. Uma divina e maravilhosa homenagem aos salva-vidas. “Que profissão bonita para um homem jovem”, diz a canção.

Beleza Pura – “Não me amarrá dinheiro não, mais formosura”, diz essa canção sobre o estilo de vida hedonista do verão brasileiro.

Os argonautas – Belíssima canção sobre versos de Fernando Pessoa. Navegar é preciso, viver não é preciso.

Marinheiro só – O que dizer dessa magnífica canção, inspirada nos temas do folclore brasileiro?

Chuvas de verão – Música de Fernando Lobo que Caetano canta como se fosse sua. “Podemos ser amigos simplesmente, coisas do amor, nunca mais…” Vixe mainha!

Cinema Olympia – Um iê-iê-iê da pesada. “Eu quero pulgas mil, na geral. Eu quero a geral”. Rebelde com causa.

Superbacana – O super herói criado por Caetano nessa canção merecia um gibi só para ele.

Coração Vagabundo – Belíssima canção romântica. “Meu coração não se cansa, de ter esperança, de um dia ser tudo o quer”. Não precisava dizer mais nada. Mesmo assim ele diz: “Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim…” Caramba!

Avarandado – Canção nostálgica que deixa a gente com saudade daquilo que não viveu.

Mora na filosofia – Música de Monsueto. Um clássico da MPB que Caetano recriou com estilo muito próprio, como se Monsueto tivesse feito a música especialmente para ele.

Guá – Uma canção cuja letra tem apenas quatro palavras: água, guamá, iguape e ibualama. Brincando com os sons dessas palavras ele cria uma sinfonia.

Pipoca Moderna – Uma letra que também brinca com o som das palavras e constrói uma bela canção.

Muito Romântico – Um discurso inflamado sobre as questões do amor. E o amor é lindo.

Oração do tempo – Comovente canção sobre a transitoriedade da existência humana.

Um índio – Uma reflexão poética sobre os mistérios do futuro da humanidade. Quem viver verá. Será?

Olha o menino – A música é de Jorge Benjor, mas Caetano arrasa no suingue e na simpatia.

Alguém cantando – Reflexão filosófica sobre a arte de cantar. Linda demais essa canção.

Falso Leblon – Crônica e crítica sobre a vida boêmia carioca, com uma vaga inspiração em Cazuza.

Diferentemente – Um bolero super charmoso onde Caetano cita Madonna, que nos versos rima com detona e Osama. E cita a música X-Static Process, do álbum American Life. Belíssima canção.

Estou triste – Uma canção que é um lamento sobre a dor da perda, a dor da saudade, a tristeza de não ter ao lado alguém que se ama. Triste, mas bela.

Soy loco por ti América – Um mergulho perfeito no ritmo suingado da América Latina.

Anjos tronchos – Aqui Caetano injeta poesia no mundo frio dos algoritmos que dominam a internet com suas vertiginosas redes sociais.

Ele me deu um beijo na boca – Com uma ritmo dançável e cheio de suingue, Caetano faz um vigoroso discurso contra os caretas e a caretice.

Não vou deixar – Um pungente discurso político em forma de poesia

Baby – Um dos primeiros sucessos de público. A música está mais atual do que nunca quando afirma que você precisa saber da piscina, da gasolina e da Carolina.

O quereres – A poesia pela poesia, numa canção que brinca com as trapaças do desejo.

Eu sou neguinha? – Um relato anárquico e irônicosobre alguém em crise de identidade.

Maria Bethânia – Uma carta de amor cheia de saudade de sua irmã, escrita na época do exílio em Londres. Pujante.

Muito romântico – O perfil de alguém que canta, compõe e se dedica com afinco as coisas do amor.

Alegria, Alegria – O primeiro grande sucesso popular, com uma letra que é uma crônica sobre o mundo no final da década de 1960.

Dom de iludir – O poeta nos trazendo verdades em versos adultos e sentimentais. “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

Não identificado – A corrida espacial aos olhos da canção popular. Fazer uma canção de amor, para gravar num disco voador.

Quero ir a Cuba – Uma graciosa e dançável homenagem aos ícones da cultura cubana numa salsa perfeita. “Cuba seja aqui? Essa ouvi dos lábios de Petit”.

No dia em que vim-me embora – Uma descrição quase literária do difícil momento de abandonar a casa dos pais e enfrentar o mundo lá fora.

Por Waldir Leite

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