Ígor Lopes: Trabalhador de consulado português no Brasil cria paródia musical com a “ajuda” de Toquinho para protestar contra salários pagos à classe

Num tom irônico, melódico e melancólico, um dos funcionários da rede consular portuguesa no Brasil, que preferiu não se identificar, compôs uma paródia musical que serve como um protesto pelo que chamou de “falta de vontade” em resolver a situação salarial dos trabalhadores das embaixadas e consulados portugueses em território brasileiro, tema que se arrasta há meses, e durante muitos governos.

Em entrevista à nossa reportagem, este funcionário, a quem daremos o nome fictício de Arantes, sublinhou que “a situação está cada vez mais complicada, que muitas promessas são feitas e que nada é resolvido e que, no Brasil, muitos dos seus colegas estão passando por situações de quase calamidade, já que perderam muito do poder de compra”.

“Grande parte dos meus colegas de trabalho já não conseguem mais pagar planos de saúde, retiraram os seus filhos das escolas particulares e têm contado com a ajuda de outros familiares e amigos para adquirirem bens básicos de alimentação e higiene”, disse Arantes, que revelou ter optado por utilizar uma paródia musical, baseada na canção “Aquarela”, do brasileiro Toquinho, para sensibilizar e chamar a atenção das autoridades em Portugal.

“Não sou a favor de greves que só servem para atrasar ainda mais o nosso trabalho e não surtem efeito, já que os serviços consulares são serviços públicos e, havendo ou não passaportes, cartões de cidadão ou outros documentos emitidos, quem sai prejudicada é a população e o nosso problema continua sendo o mesmo. Diferentemente de outros colegas, preferi utilizar a música e esta não foi a primeira vez. Confesso que me sinto frustrado com a situação, embora tenha ajuda familiar, mas muitos não têm. Talvez ao ouvirem o nosso drama, possam sentir no nosso espírito, na composição e no nosso tom de voz que essa realidade precisa mudar”, finalizou Arantes.

Segundo apurámos, está em causa “a falta de uma resposta concreta e com data marcada para o fim das negociações entre o Sindicato dos Trabalhadores Consulares e das Missões Diplomáticas (STCDE) e o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal para resolver uma situação caracterizada pelo pagamento dos salários dos funcionários de Embaixada e dos Consulados de Portugal no Brasil recebendo em moeda local, neste caso, Reais, num câmbio antigo, algo que não acontece em outros países”.

“O câmbio do Euro a R$ 2,638, congelado desde maio de 2013, por causa do Decreto Lei 47/2013 de 05 de abril, que não foi observado e nem cumprido pelo MNE e muito menos exigido por parte desse STCDE, o cumprimento do artigo 12º, números 1 e 2, do mesmo Decreto Lei, onde deveria ter sido publicado um Decreto-Lei complementar, para regulamentar o índice de reajuste anual dos nossos salários, com base nos índices de inflação do Brasil ou dos índices de custo de vida das Nações Unidas”, reiteraram os funcionários dos consulados e embaixadas de Portugal no Brasil, recentemente.

Esta situação, ainda sem data de resolução, e que precisa, de acordo com fontes, de luz verde por parte do Ministério das Finanças de Portugal, já mereceu reações do Conselho das Comunidades Portuguesas, da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e do STCDE.

Conheça a letra da composição “desafiadora e de contestação” que circula pelo Brasil e à qual tivemos acesso.


Num salário qualquer
Te pagam com Euro paralelo
E com 2,63
Não tem pão, eu só tenho farelo

Isso é tão sem noção
Quanto secar o cabelo na chuva
Não dá pra entender
orque não pinta logo uma ajuda…

Parece que falta tinta
Pra assinar logo o tal do papel
Ou que algo divino
Nos mande uma luz direto do céu

Vão enrolando…
Prometendo de um tudo… estamos fú…
Que novela vai passando
E aí? Deu ruim… toma no pru…
Eis que então revela no tranco, capengando
Uma porcentagem, mais um tabu…

Defasagens vão surgindo
E a inflação sempre a aumentar
E os preços tão subindo
Não tem como mais acompanhar

Está subliminar e eu estou sentindo
Nada surtindo
Só se Deus quiser
É que isso vai mudar

Ígor Lopes

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