Flavio Santos: O Show Man Luís Carlos d’Ugo Miele

Miele. 1974. Foto Domício Pinheiro. Arquivo Estadão. Com modificações do autor do texto.

Miele nasceu em São Paulo no dia 31 de maio de 1938. Filho do ferroviário Dinovaldo do Nascimento Miele e de Irma D’Ugo Miele, instrumentista, cantora e atriz, conhecida no meio artístico como “Regina Macedo”. Irma se apresentava em programas na rádio Educadora Paulista e cantava no cassino São Vicente, também em São Paulo. Miele acompanhava a mãe desde os 6 anos nos ensaios e apresentações.

Regina Macedo. 1936. Correio Paulistano. Acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

Começou a sua vida artística no rádio, com dezesseis anos, em meados da década de 1950. Miele trabalhou no campeão de audiência da emissora Excelsior paulista, a PRG-9, o programa “Meu Filho, meu orgulho”, adaptação do texto do romancista Mário Donato. O escritor ganhou notoriedade pelo escândalo que causou o livro “Presença de Anita”, lançado por ele em 1948.

Mário Donato. 1950. Gazeta Esportiva (SP). Acervo da BNRJ

No início de 1959 a Tv Paulista, antigo canal 5, investia numa linha de teleteatros para o horário nobre das quartas-feiras. Miele trabalhou, ao lado de Moacyr Franco, como ator em adaptações para a TV de obras de escritores como William Faulkner e do craque da literatura policial, Cornell Woolrich.

Propaganda dos faroestes da Tv Continental. 1960. Diário Carioca. Acervo da BNRJ

Foi a abertura da filial carioca da Tv Continental que fez Miele mudar para o Rio, a convite de um dos pioneiros da televisão no Brasil, Demerval Costa Lima. Com 22 anos, em 1959, vai morar no bairro do Catete, no apartamento do ator e produtor José Miziara. O “apertamento” tinha vista para um muro (“a melhor vista do céu”, dizia Miele), e que ainda era dividido com o ator Francisco Milani e outros rapazes. Milani era produtor do programa “Documentários de Arte”, na Continental, canal 9, ponto de encontro de vários artistas. O “cast” da Tv no Rio era composto, dentre outros, por alguns nomes bem conhecidos da atualidade como Paulo Goulart, Nicette Bruno e Joana Fomm e produtores como Haroldo Costa e Edna Savaget.

Teledramas da Tv Continental. 1959. Diário Carioca. Acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

Miele era assistente de produção e diretor de estúdio da Continental e foi nesse meio de trabalho que conheceu o repórter da revista Manchete, Ronaldo Bôscoli. Foi Bôscoli que apresentou a Miele a juventude da zona sul do Rio envolvida com a Bossa Nova. Miele começou a frequentar o bairro de Ipanema, tendo contato com artistas e intelectuais.

Miele, ao centro, Osvaldo Legey e Antonio Seabra na TV Continental. 1960. Revista Radiolândia. Foto O. Câmera. Acervo da BNRJ

Passados alguns anos, a Continental entrou em seus piores dias. Miele dormia no estúdio, era pago com cigarros, sabonetes, pneus, ou o que os patrocinadores pudessem ofertar. A TV precisava de um programa vespertino de Bossa Nova. Ele não tinha intimidade com a turma e pediu a Bôscoli que fizesse os contatos. Após o apartamento de Miziara, passou ainda por uma pensão também no Catete até que começou a morar no apartamento de Ronaldo, em Copacabana, mais precisamente num sofá da casa, por quatro anos. Estava formada a dupla Miele & Bôscoli (M&B) que marcaria o show business brasileiro.

A dupla Miele e Bôscoli. Sem data. Sem autor. Reprodução de internet.

A grande importância da dupla M&B para a Bossa Nova já foi amplamente explorada e pode ser achada detalhadamente na internet. Eles são responsáveis pelo marketing da Bossa Nova. No Beco das Garrafas, com os seus pocket shows e reproduções de slides lançaram nomes como Lennie Dale, Elis Regina, Wilson Simonal, Sérgio Mendes, Nara Leão, tamba Trio e muito outros.

Miele já era conhecido no início da década de 1960 pelo talento, como um produtor inteligente, moderno, pela barba ruiva (“o Fidel me copiou”, brincava), pela veia humorística e a preferência pelo “scotch”. Com Bôscoli, revolucionou a forma dos espetáculos musicais como entretenimento no Brasil.

Ainda na Continental, Haroldo Costa, que era diretor artístico da emissora no final de 1962 (após excursionar pela Europa com o show “Skindô”), elaborou uma nova atração, o “Iate-show”, uma resenha artística semanal com a colaboração da dupla M&B. Na Tv Rio, canal 13, Miele dirigiu o especial com Silvinha Telles e João Gilberto no famoso programa “Noite de Gala”, em 1960.

Durante o ano de 1963 os parceiros M&B, com a ajuda de Marcos Vasconcelos e Zezé Soares produziram um festival de Bossa Nova no Golden Room do Copacabana Palace. Uma apresentação que agradou ao público, sempre lotando, mas com problemas técnicos. No show “Tem Bossa no Copa” se apresentaram os conjuntos Bossa Rio e Trio Samba, os artistas Claudete Soares, Silvinha Telles, Baden Powell, Vinícius de Moraes e Roberto Menescal.

Ronaldo Bôscoli, Helena Ignês e Mielle ensaiando o show Tem Bossa no Copa. Jornal do Commercio (RJ). 1963. Acervo da BNRJ. Foto com adaptações.

A parceria M&B produziu ainda o show de Sérgio Mendes, em 1963, com seu Conjunto Bossa Rio na boate Au Bon Gourmet (Av. N. Sr.a de Copacabana, 202), de Flávio Ramos e onde foi apresentada Garota de Ipanema. O restaurante foi inaugurado em 1957 pelo cozinheiro José Fernandes, no ponto da antiga boate Fiesta. Em junho, na mesma casa, engrenaram com o show “Rio Bossa Rio” e as “Garotas Bossa-Nova”, que viajaram por São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte. Enquanto isso, encontravam fôlego para escrever programas semanais para a Tv Excelsior do Rio.

Miele cumprimenta Bibi Ferreira pelo trabalho em Alô, Dolly, no camarim do Teatro João Caetano. 1966. Jornal A Luta Democrática. Acervo BNRJ

No ano conturbado de 1964, o Noite de Gala, de Abraão Medina, saiu da Tv Rio e foi para a Tv Excelsior. Geraldo Casé e Miele ficaram responsáveis pela parte musical do programa, com a direção-geral entregue a Bôscoli, numa tentativa de dominar o horário nobre das segundas-feiras. Em meados daquele ano, Miele produziu com Bôscoli o show do bailarino Lennie Dale na boate Zum-Zum, da rua Barata Ribeiro, bairro Copacabana, de propriedade de Paulinho Soledade. Miele costumava jantar no Frango de Ouro, na rua Viveiros de Castro, n.93, antiga boate Euriana, quase esquina com Ronald de Carvalho, onde acertou os ponteiros para o show de Lennie.

Miele fazendo graça em uma de suas participações em show humorísticos. 1969. Correio da Manhã. Acervo BNRJ

Casou-se com Ana Maria Praça, em 12 de setembro de 1964. Em novembro, Abraão Medina inaugurou a boate “Rio, 1800”, nas comemorações do IV Centenário do Rio de Janeiro. A casa tinha direção musical da dupla M&B e de Roberto Menescal. Ficava na Av. Vieira Souto, ao lado do Castelinho, onde funcionava um botequim decadente conhecido como “Mau Cheiro”…

Em abril de 1965 são contratados pela TV Globo e participam como colaboradores e diretores de inúmeros programas musicais, como “Alô, Doly” e a sitcomDick & Betty 17”, com Betty Faria e Dick Farney.

Conhecida como a “boate mais fechada do Brasil”, por ser muito exclusiva, a Rui Bar Bossa, (ex-Le Bateau) na rua Rodolfo Dantas, era propriedade de Lúcio Alves, Maurício Paiva e Geraldo Casé. Foi o palco do show da cantora Claudette Soares, produzido por M&B, em 1966. A participação de Miele foi interrompida por um acidente de carro, em março, no qual sofreu com escoriações.

Em São Paulo, a dupla assumiu a produção de “O Fino da Bossa”, com a participação de Elis Regina, Jair Rodrigues e Juca Chaves, em 1967. Em abril, produziram “Com açúcar e com afeto”, espetáculo musicado, com texto de Millôr Fernandes e Reinaldo Jardim. No show estavam Rosinha de Valença, Norma Benguel e o trio Chico Batera, no teatro Princesa Isabel.

Produziu com Bôscoli e participou, fazendo mise-en-scène com Darlene Glória no show “Nous” na boate Le Bilboquet, de Alberico Campana e Lêda Bastos, em agosto de 1969. A casa foi inaugurada em 1967, no ponto da antiga boate Porão 73, na rua Barata Ribeiro. Participavam do espetáculo os músicos Luís Carlos Vinhas e Luís Eça. Um show sempre lotado e com ótima crítica. Miele já exercitava sua veia artística e humorística com a cantora Tuca, no espetáculo cômico “Tuca 69”, de fins de 1968, em que Miele subia no palco, contando piadas “picantes” e fazendo imitações.

Show Nous na boate Le Bilboquet. 1969. Diário de Botícias. Acervo BNRJ

Em agosto de 1969, com Bôscoli e Marcos Lázaro, criaram a “Praia Produções Ltda”, que passou a ser responsável pelos espetáculos do Teatro da Praia. Produziram naquele palco os shows de Roberto Carlos e de Elis Regina, no mesmo mês. O espetáculo de Elis gerou o disco “Elis no Teatro da Praia”, de 1970.

Show de Elis Regina no Teatro da Praia. Diário de Notícias. Arte DN. 1969. Acervo da BNRJ

No mesmo teatro, para a comemoração dos 15 anos de vida artística de Agildo Ribeiro, a dupla produziu o show “Deixa que eu faço sozinho”, que teve a direção de Gianni Ratto.

Miele e Agildo Ribeiro nos bastidores de Deixa que eu faço sozinho. 1969. Diário de Notícias. Acervo da BNRJ

Com Alberico Campana, Miele abriu, no final de maio de 1971, o bar e restaurante Monsieur Pujol, na rua Aníbal de Mendonça, n.36, bairro de Ipanema. Manuel Cerdeira comandava a cozinha do Pujol e consta que foi trazido ao Brasil por Juscelino Kubitschek, em 1962.

Alberico Campana e Miele. 1985. Imagem da Internet

A parceria entre Miele e Bôscoli foi responsável pela quebra do velho esquema dos programas musicais televisivos com estilo radiofônico. Com um canhão nas mãos chamado Rede Globo, em 1971, com Carlos Alberto Loffer, dirigiram o programa mensal “Elis Especial”. Augusto César Vanucci, vendo a atuação de Miele e Sandra Bréa no espetáculo “Regina Mon Amour”, estrelado por Regina Duarte, concebeu um novo programa para a Tv Globo, o mensal “Especial Sandra & Miele”, de 1976. Tentaram reeditar a parceria, no mesmo ano, agora nos palcos, no show “Bananas & Paetês”, com texto de Ronaldo Bôscoli e direção de Vanucci. Se apresentaram no restaurante Vivará, na Av. Afrânio de Melo Franco, n.300, ao lado do Teatro Casa Grande, bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Não agradou muito.

Após ficar 7 anos fora do ar, a Rede Globo resolveu produzir, já sob o tal “padrão globo de qualidade”, em abril de 1977 o programa humorístico popular “Praça da Alegria”, criação do grande Manuel de Nóbrega, falecido um ano antes. A apresentação era de Miele e a redação final era de Carlos Alberto de Nóbrega. Considerado um dos fracassos de Miele, sua participação foi resumida na crítica da revista Manchete da seguinte forma:

Mais melancólico do que isso só as expressões forçadas de Luís Carlos Mièle, aparentando achar graça nas chanchadas vulgaríssimas e repetitivas de uma coisa triste, que leva o título enganador de Praça da Alegria.”

Tirando o preconceito típico da época com os programas populares, foi um encontro infeliz de dois mundos diferentes. Toda a crítica achou Miele deslocado naquele papel.

Ronald Golias e Miele. c.1976. Foto Memória Globo

Miele exercitou novamente seu lado apresentador nos anos 80 – antes de raspar a barba por Cr$1,5 milhão, em 1979. Apresentou o MPB 80, da Rede Globo de Televisão e a Associação Brasileira de Produtores de Disco, com a final em um Maracanãzinho lotado, o prêmio Molière, no Teatro Municipal do Rio, o prêmio Tendência, do Grupo Bloch, no Teatro Adolpho Bloch. E ainda, coincidindo com uma de suas paixões (chegou a ter 11 cães pastores alemães), apresentou o Ranking CBKC que premiava os melhores cães de exposição, em 1984.

Em 1983 a Rede Globo resolveu copiar o já manjado programa americano Jogo da Velha, a “Batalha dos Astros”, apresentado por Miele com a participação de artistas da Globo, sempre aos domingos, muito antes do Faustão. Rubens Furtado, superintendente da TV Manchete, entrou em negociação e o resultado foi o programa “Miele & Cia”, de 1987, onde atuava com um time de modelos e convidados.

Fez sucesso em São Paulo, depois de 4 anos fora dos palcos, com “150 Night Club” no Maksoud Plaza, em 1984. Três anos depois, com o escritor Luís Fernando Veríssimo, fez um show de sucesso em Porto Alegre.

Miele se apresenta em São Paulo. 1984. Acervo G1. Internet.

Colpo Grosso foi um game-show erótico da TV Itália 7, veiculado entre os anos 1987 e 1992 na Itália, que deu origem ao programa do SBT de Sílvio Santos, “Cocktail”, de 1991. Considerado uns dos “micos” pagos por Miele, o programa de strip-tease batia (sem trocadilho) 4,5 pontos de Ibope no Rio e 13 em São Paulo, com picos de 20 pontos, nas noites das quintas-feiras. Miele, o apresentador, classificava a atração como “ingênua” e recordou: “É só comparar com a violência e a pornografia veiculadas atualmente na TV”. Para infelicidade de muitos adolescentes, o programa acabou por falta de patrocínio.

Miele apresentando o programa Cocktail do SBT. 1991. Reprodução de Internet.

A década de 90 e os anos 2000 trouxeram uma série de “revivals” sobre o tema Bossa Nova. Miele emendou uma fileira de shows musicais, duetos, onde exibia seu repertório de piadas e “causos”. Fez show no antigo Scala II, no Metropolitan, onde era diretor artístico.

Miele e Wanda Sá. No show. A Música, a História e o Humor da Bossa-Nova. 2004. Fotos de Divulgação.

No Mistura Fina, após a morte do seu grande parceiro Ronaldo Bôscoli em novembro de 1994, fez show com Wanda Sá e Roberto Menescal que gerou um CD ao vivo. O show “Apenas Bons Amigos” foi transferido para o Bar do Tom. Sua participação foi interrompida por um acidente que sofreu ao cair da varanda de seu apartamento. Com duas rótulas fraturadas e vários pontos na cabeça, teve que cancelar também sua participação como apresentador do “A Vida é um Show”, da Rede Brasil. Após sua recuperação, voltou com um show de humor no Belle Époque do Hotel Nacional, em 2003.

Se apresentou com o grupo Os Cariocas, em 2008, para comemorar os 50 anos da Bossa Nova, no Mistura Fina (Av. Rainha Elizabeth, n.769, em Ipanema). Seguindo a mesma linha, voltou ao Bar do Tom, em 2010, com o show “Música, Humor, Mentiras e Videotapes”. Em 2014, com 76 anos, teve fôlego para participar do “Dança dos Famosos”, quadro de sucesso do “Domingão do Faustão”, da Rede Globo.

Miele e Aline Riscado no Dança dos Famosos. 2014. Foto Camila Camacho GShow

Com direção de Claudio Botelho, interpretou o personagem-título em “O Mágico de Oz”, entre os anos 2012 e 2015. O tricolor Miele nunca parou de trabalhar, este foi apenas um perfil incompleto de sua vida. Poderia falar das participações em novelas, no cinema, nas séries de TV paga, nos discos e CDs que gravou. Em 2002, foi agraciado com a Medalha Pedro Ernesto, da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, com festa na casa de shows Canecão. Recebeu na casa Julieta de Serpa, no bairro do Flamengo, o prêmio Embaixadores do Rio, em 2013, da Fundação Cesgranrio.

Miele. Sem data. Sem autor. Foto reprodução de internet

Miele morreu dia 14 de outubro de 2015, aos 77 anos, em sua residência em São Conrado. Foi velado na Câmara dos vereadores do Rio e sepultado no Cemitério do Caju.

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